Retiro de Quaresma

ENTRADA NA QUARESMA

A Quaresma é um tempo simbólico, a começar pelo nome. Quaresma vem de "quarenta": 40 foram os anos que o Povo de Deus passou no deserto a preparar a sua entrada na Terra Prometida (Ex. 16, 35);  e Jesus esteve 40 dias preparando-se para a sua Missão (Lc. 4, 1-13). Nós temos também agora os nossos quarenta dias em vista da Páscoa. Claramente este é um tempo para intensificarmos a nossa vivência cristã, transformando este punhado de dias numa oportunidade da Graça.

Somos desafiados a percorrer três caminhos que nos podem ajudar a atingir aqueles objectivos:

1. A oração. A oração é a expressão da confiança que podemos ter em Deus. "Invoca-me, e eu te responderei", diz Deus no Livro de Jeremias (33, 3). A oração actualiza a certeza de que somos ouvidos, acolhidos, abraçados. Como na parábola que Jesus conta, o Pai avista-nos, corre ao nosso encontro, abraça-nos e cobre-nos de beijos (Lc. 15, 20). A oração celebra essa intimidade. Na oração não ficamos apenas a olhar para Deus, mas o Espírito Santo ajuda-nos aí a que nos olhemos (a nós próprios e ao mundo!) com os olhos de Deus. Descobrimos assim que a nossa realidade histórica tem uma vocação trancendente.

2. O jejum. Vivemos triturados na digestão que o mundo faz de nós. Consumimos em vez de consumar. Corremos de um lado para outro, reféns e instrumentos mais do que autónomos e criativos. Ora, o jejum (por exemplo, comer menos ou evitar o supérfulo, consumir menos, desistir menos, etc.) corresponde a um acto esperitual, pois amplia o campo da nossa liberdade. Sem darmos conta, são tantas as correntes que nos prendem e as dependências que nos diminuem! O jejum, adoptando um estilo mais frugal, cria novas disponibilidades, possibilita um melhor exercício do pensamento e do descernimento, melhora inclusive o sentido de humor...

3. Ao jejum está ligada a prática da esmola, que tem a sua modalidade mais autêntica na condivisão (embora esta se traduza em tantas quantas as formas possíveis). Lê-se no profeta Isaías: "O jejum que Eu quero não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços de servidão...? Não será repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm com que se vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?" (Is. 58, 6-7). O jejum abre interiormente o nosso coração aos outros. A esmola concretiza-o no compromisso solidário por um mundo fraterno.

O tempo litúrgico da Quaresma teve início na Quarta-Feira de Cinzas. Na missa desse dia, o rito derrama sobre a cabeça dos fiéis o austero sinal das cinzas. Mas dissemina sobretudo a pergunta fundamental: "Como tornar a cinza em lume?"

(Condensado de "O Hipopótamo de Deus e outros Textos", de José Tolentino Mendonça)


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